quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O Jardim da Vó

Margaridas, onze-horas, rosas vermelhas, rosas rosas,
beijinhos e um cipreste que chamávamos de pinheirinho, enfeitavam o jardim da
“vó”. Tenho guardada na memória a imagem viva da vó, toda tarde, meio arcada,
aguando o seu jardim. Quando brincávamos de esconde-esconde e nos aventurávamos
adentrando o seu pequeno xodó no quintal, logo ela aparecia na janela da
cozinha e com sua voz rouca nos expulsava de lá. Saíamos bravos e batendo o pé,
respondendo, mas bem baixo para que ela não nos ouvisse.

Ela obrigava o nosso avô a capinar sempre o jardim,
que ele fazia meio a contragosto, mas sempre fazia. Deixava tudo limpinho.

Não me sai da cabeça a lembrança da vó, nos seus
últimos sopros de vida, pedir para ver o seu jardim, ainda florido e verdejante
lá embaixo. Ao vê-lo, ela disse apenas: “Valeu a pena”, aguentou só alguns
segundos sentada e a cama hospitalar instalada em seu quarto voltou a posição
horizontal, deixando apenas a visão do céu pela janela, era a ultima vez que
via o jardim.

Hoje tenho uma tristeza profunda quando olho aquele
jardim. Não é mais florido, está sujo, a grama alta, o pinheirinho que agora
está muito alto dá seus últimos suspiros.

O vô parou de capinar, acho que para ele aquilo não
mais importa, já não tem a vó para pressioná-lo e ver como ficou bonito.

Assim com o jardim que era cheio de flores, a casa da
vó era cheia de gente sempre. Depois da partida dela, tal qual o jardim que
perdeu sua beleza e suas flores, a casa não enche mais, não porque o vô não
seja importante. A vó era a alma daquela casa, a vó era a alma daquele jardim.


Mas na memória dos netos vai ficar sempre a imagem do sorriso da vó ao
ver seu jardim florido.

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